terça-feira, novembro 16, 2004

Resposta

Pela Mascote fui levada aos comentários de um post escrito num blog chamado Letras com Garfos.
Comentei também e recebi a resposta ao meu comentário. Já tudo era triste mas esta resposta foi assustadora. Foi de tal maneira que tive de deixar novo comentário. É o meu texto em resposta ao Orlando, que aqui partilho convosco. Provavelmente não entenderão algumas das referências, mas se passarem por lá ficam ilucidados.

"Sinceramente, Orlando, lamento desiludi-lo mas continuo a considerá-lo ignorante. Alguém que se refere aos homossexuais como, e cito: “uma elite com um estilo de vida excentricíssimo” só pode ser mesmo ignorante. Adorava saber onde é que eu fico no meio disto, uma vez que sou homossexual e ao mesmo tempo não me sinto pertencer a nenhuma elite e muito menos tenho um estilo de vida excentricíssimo: hoje fui dar aulas, depois fui almoçar a casa dos meus pais, vou preparar uns exercícios para os alunos e vou prepara uma reunião, mais logo vou fazer sopa de legumes e carne assada. A minha mulher há-de chegar, jantamos, vemos um pouco de televisão ou lemos, iremos dormir. É claro que não está à espera que eu me exceda e fale na minha vida sexual pois não? Também não me parece que o Orlando goste de falar da sua, e com toda a razão. A intimidade é intimidade para todos, embora por vezes se confunda isso.
Por isso, realmente acho que ignora a realidade e baseia o seu discurso homofóbico, sim porque é realmente homofóbico, numa pseudo-ciência. Se não gosta de se sentir homofóbico não o seja. Não preciso que esteja do meu lado, se não estiver contra mim já é bom. Continuo sem entender em que medida viver a minha vida afectiva de modo livre pode ser uma ameaça para a sociedade. O Orlando, na sua desmontagem, preconceituosa e incoerente, como só o preconceito permite ser, tentou explicar essas razões. Chegou mesmo a por em negrito a frase: Os homossexuais constituem um erro biológico, conforme comprovado cientificamente. Segundo a OMS eu não sou doente, e quem sou eu para, questionar, mas o Orlando é, rodeado da sua sabedoria desactualizada. Mas mesmo assim, mais uma vez acho que o vou desiludir: não me custa nada aceitar que sou um erro genético ;) E se for? Nasci assim, com erro no sistema. O que me custa a aceitar é que haja gente que acha exactamente isto, que é um erro biológico, e que portanto temos de pagar com infelicidade este azar, gente que diga frases do género, como podemos ver nos comentários em cima, “hão-de engolir o pão que amassaram” . Eu sinceramente não acho que seja um azar. Tenho uma vida afectiva bem preenchida e sou feliz. Agora, Orlando, já imaginou o azar que teria um filho seu se fosse homossexual? Eu tive sorte com os meus pais.
Temos de proteger a sociedade do quê? De que homossexuais “venham a ter o estatuto social igual ao casamento entre uma mulher e um homem base da família genuína e sustentáculo da nossa sociedade”. Eu quero lá saber se é casamento, se é outro nome qualquer. O que eu quero é poder entrar no hospital para ir ver a minha mulher, com quem já vivo há 4 anos, onde só pode entrar um primo afastado, porque eu não sou de família. O que eu quero é que a casa que comprámos juntas fique para ela se eu morrer, em vez de ter de a partilhar com uns primos meus que eu quase nem conheço. O que eu queria é que nenhuns pais dissessem a um filho que para eles ele morreu porque é gay. O que eu queria é que pessoas como o Orlando parassem e pensassem que raio de ameaça é que afinal somos? Tenho amigos com filhos e nunca sentiram ameaça alguma com a nossa presença. O que é que acontece? Os filhos podem ficar gays por verem as tias (e o que será que vêem afinal)? Toda a sociedade fica gay? E o que é feito do erro biológico? Afinal é por contágio? Se desde cedo se explicar que ser homossexual é tão natural como ser louro ou moreno, garanto-vos que não há problema. Serão certamente adultos que não quererão impedir a felicidade de outros apenas porque se sentem afectivamente e sexualmente atraídos por pessoas do mesmo sexo. Porque no fundo resume-se a isto. Quais “estilo de vida excentricíssimo” , se calhar tenho uma vida mais calma do que a sua Orlando. Não vejo vantagem em ter de viver a minha vida afectiva de forma clandestina e infeliz. Não vejo de que modo isso o possa fazer mais feliz a si. E não tenha medo, porque a sociedade soma e segue. Sempre houve homossexuais. Os gregos até se saíram muito bem e não tinha estes problemas. Não é preciso ter formação na área da filosofia para se saber o que é preconceito, um dicionário banal resolve o problema.
Quanto ao lobby fabuloso que me trouxe até aqui, foi um simples blog que costumo ler. A autora estava triste com o que leu e eu resolvi vir aqui. Sim, leio muitos blogs de gays. Por vezes é a única forma de não nos sentirmos sozinhos num mundo onde temos de andar escondidos.
Interrompi a escrita deste comentário porque a minha mulher telefonou a perguntar se era preciso trazer pão. Mais uma das nossas loucuras típicas do nosso estranho comportamento desviante e excêntrico. Elas até se telefonam para saber se é preciso pão! São mesmo amorais!
E pronto queria só agradecer os parabéns dados anteriormente pelo meu poder de síntese e pedir desculpa por não ter cumprido as expectativas nesse campo. Realmente não consegui ficar indiferente à resposta. Espero ter sido elucidativa. Mas sei que as ideias pré-fabricadas são difíceis de desmontar. Faça um esforço Orlando, a sério, não estou a ser irónica agora, imagine que nasceu igualzinho ao que é mas que trazia aquilo a que chama o erro biológico, conforme comprovado cientificamente. Que mundo é que o Orlando acha que merecia então? Merecia menos? Eu acho que não."
Teca

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